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segunda-feira, 2 de abril de 2012

O CORDEIRO PASCAL

A Páscoa foi uma festa instituída por Deus em lembrança da libertação dos israelitas da escravidão do Egito. O nome significa passagem, alusão à visita do anjo da morte que eliminou os primogênitos egípcios e preservou os hebreus cujas portas das casas tinham sido aspergidas com o sangue do cordeiro pascal (Ex.12.11-27).
Era uma festa com muitas regras a serem observadas pelo povo. O cordeiro morto tinha que ser sem defeito, novo e macho. Na mesma noite, o cordeiro assado deveria ser comido com pão asmo e ervas amargas, não devendo ser quebrados os seus ossos. Se havia sobra para o dia seguinte, esta devia ser queimada. Durante os oito dias da Páscoa não se podia comer pão levedado. Era tão rigorosa a obrigação da guarda da Páscoa que todo aquele que a não cumprisse seria condenado à morte (Nm 9.13). E aquele que tivesse qualquer impedimento legítimo, como jornada, doença ou impureza, tinha que adiar sua celebração até ao segundo mês do ano eclesiástico. Vemos um exemplo disso no tempo de Ezequias (IICr 30.2-3).
Para os cristãos, Jesus Cristo é o sacrifício da Páscoa. Perfeito e sem pecado. Isso é claro na profecia de João Batista, em Jo. 1.29: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!" e na ordem do apóstolo Paulo: "Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado." (1Co 5.7).
Jesus Cristo é o Cordeiro de Deus que foi sacrificado para salvação e libertação dos pecados de todo homem que crê. Para a saída da escravidão do pecado e da morte e entrada na liberdade que nEle há.
Para isso aprouve a Deus que a Sua morte acontecesse exatamente no dia da Páscoa judaica, apresentando de forma clara o paralelo entre o sangue do cordeiro e o sangue do próprio Jesus.
A Páscoa dos hebreus libertou-os da escravidão física e da opressão dos egípcios. O sangue de Jesus nos livrou da escravidão espiritual, do pecado e da morte eterna.
Como Paulo declarou “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). E ainda Pedro: “Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (IPe. 1.18,19).

Rosane Itaborai Moreira

Postado em 03/04/2010

sábado, 4 de setembro de 2010

RENÚNCIA: CAMINHO DE BENÇÃOS


“A renúncia é a libertação. Não querer é poder.” (Fernando Pessoa)

Renúncia, no dicionário, tem simples significados: abrir mão, desistir da posse, rejeitar, recusar, não querer, deixar voluntariamente. Na prática, a renúncia talvez seja o maior desafio do cristão.
Estamos acostumados a fazer nossos planos e tomar diariamente nossas decisões. Sentimos segurança nessa atitude. Achamos que, assim, sabemos onde estamos pisando e para onde estamos indo. Queremos, a todo custo, ser donos da nossa própria vida.
Mas o chamado de Jesus é justamente o contrário. Ele nos convida a uma vida de entrega a Deus. E não se trata de uma simples entrega; é a entrega da nossa vida, caminhos e decisões.
O Senhor nos convoca a essa trajetória com autoridade, pois Ele mesmo a trilhou. Sua principal palavra de renúncia foi no Getsemani, próximo da morte: "Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres" (Mc. 14.36).
A Palavra de Deus afirma: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp.2.5-8).
E por que uma vida de renúncia e entrega seria o melhor para o homem?
Porque a queda da humanidade trouxe-nos muitas limitações e o pecado nos impede de fazer escolhas corretas. Somente Deus é capaz de nos guiar para a direção certa e decisões seguras. Compreendendo que somos incapazes e restritos, conseguimos entender a extensão do amor do Senhor e a Sua capacidade de nos oferecer o melhor para nossas vidas.
Tiago (4.13-15) alerta: “Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo.”
Somente a fé na eficácia do sacrifício de Jesus nos permite uma vida de renúncia. Ninguém, em sã consciência, entregaria seu destino a outro, a não ser que conhecesse intimamente a intenção e a capacidade desse novo senhor de sua vida. Paulo entendeu e fez uma declaração que pode nos ajudar: “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl. 2.20).
Deixar o Senhor reinar em nós é o ápice da caminhada em Cristo. Essa confiança nos certifica a maturidade cristã, pois somos capazes de devolver a Jesus aquilo que Ele nos ofereceu: a vida.
Também somos participantes com Ele das bênçãos daí advindas. A Jesus, “Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2; 9-11). E a nós, Ele garantiu: “Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado” (Mt. 23.12).
A renúncia de nossos desejos e projetos pode ser extremamente difícil. Para quase todos nós é uma luta diária travada em nossas mentes e corações. Mas é ela que nos liberta e nos livra de nossas próprias escolhas errôneas. Estejamos seguros e determinados a essa ação, com a confiança de que são do Senhor os melhores planos e os melhores desígnios para as nossas vidas.

Rosane Itaborai Moreira

sábado, 3 de abril de 2010

O CORDEIRO PASCAL


A Páscoa foi uma festa instituída por Deus em lembrança da libertação dos israelitas da escravidão do Egito. O nome significa passagem, alusão à visita do anjo da morte que eliminou os primogênitos egípcios e preservou os hebreus cujas portas das casas tinham sido aspergidas com o sangue do cordeiro pascal (Ex.12.11-27).
Era uma festa com muitas regras a serem observadas pelo povo. O cordeiro morto tinha que ser sem defeito, novo e macho. Na mesma noite, o cordeiro assado deveria ser comido com pão asmo e ervas amargas, não devendo ser quebrados os seus ossos. Se havia sobra para o dia seguinte, esta devia ser queimada. Durante os oito dias da Páscoa não se podia comer pão levedado. Era tão rigorosa a obrigação da guarda da Páscoa que todo aquele que a não cumprisse seria condenado à morte (Nm 9.13). E aquele que tivesse qualquer impedimento legítimo, como jornada, doença ou impureza, tinha que adiar sua celebração até ao segundo mês do ano eclesiástico. Vemos um exemplo disso no tempo de Ezequias (IICr 30.2-3).
Para os cristãos, Jesus Cristo é o sacrifício da Páscoa. Perfeito e sem pecado. Isso é claro na profecia de João Batista, em Jo. 1.29: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!" e na ordem do apóstolo Paulo: "Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado." (1Co 5.7).
Jesus Cristo é o Cordeiro de Deus que foi sacrificado para salvação e libertação dos pecados de todo homem que crê. Para a saída da escravidão do pecado e da morte e entrada na liberdade que nEle há.
Para isso aprouve a Deus que a Sua morte acontecesse exatamente no dia da Páscoa judaica, apresentando de forma clara o paralelo entre o sangue do cordeiro e o sangue do próprio Jesus.
A Páscoa dos hebreus libertou-os da escravidão física e da opressão dos egípcios. O sangue de Jesus nos livrou da escravidão espiritual, do pecado e da morte eterna.
Como Paulo declarou “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). E ainda Pedro: “Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (IPe. 1.18,19).

Rosane Itaborai Moreira

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

EXAMINA, SENHOR!


“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações”. (Je. 17.9,10)
Nesse texto, A Palavra de Deus afirma que o homem não pode confiar em si mesmo, ele mesmo não tem capacidade de julgar. Isso porque o homem é um ser corrompido pelo pecado a tal ponto que perdeu os parâmetros de avaliação e as suas motivações lhe são ocultas. Ele mesmo não se conhece. Sua mente pecaminosa descobriu uma maneira de esconder dele mesmo as suas piores intenções e perversidades.
Por isso, Davi clamou: “Senhor, tu me sondas e me conheces... de longe penetras os meus pensamentos. Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos” (Sl. 139.1,2,23).
Além de incapaz para se auto-avaliar, o coração do homem tende para o mal e inclina para o pecado. “Visto como se não executa logo a sentença sobre a má obra, o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto a praticar o mal.” (Ec. 11.8)
Somente com ação de Deus podemos nos conhecer. Somente através de Cristo, a Verdade que liberta, a Luz que ilumina, podemos enxergar o estado de podridão que estava nossa mente e coração e começar a caminhar em direção a uma cura. Em Ezequiel 36.26, Deus prometeu ao Seu povo: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne.” Essa promessa se cumpriu em nós através de Cristo.
Precisamos permitir que o Senhor nos sonde. Não é Ele quem precisa nos conhecer, mas somente através dEle podemos nos conhecer e ter nosso caráter aperfeiçoado. Somente Deus pode transformar nosso coração, tirando toda dureza, tristeza, maldade e dor.
“Entregar o coração a Deus para exame" talvez seja a melhor maneira de administrar nossa mente e nossa vontade, sabendo que Ele é o Senhor da nossas vidas e em tudo pode nos conduzir, tanto através da Sua Palavra como através do Seu Espírito.
Que Jesus possa completar em cada um de nós a obra que um dia começou, não apenas nos salvando da morte eterna, mas nos libertando, ainda nesta vida, das nossas próprias prisões e enganos.

Rosane Itaborai Moreira

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

NÃO REPITA A HISTÓRIA


Ao rever a história da humanidade, nota-se que, apesar do avanço tecnológico e científico e mudanças culturais, o homem sempre permanece o mesmo como agente causador de conflitos e imoralidade.
No âmbito internacional, continua-se a presenciar as guerras, o xenofobismo, o domínio e a submissão de nações, a destruição da natureza. No aspecto social, repete-se a perversão moral, a pobreza, o domínio de classes, a corrupção, os crimes, etc. Individualmente, o homem pratica hoje os mesmos erros do passado: soberba, ciúmes, luxúria, preconceitos, ódio, inveja. Isso por um único motivo: a introdução do pecado na humanidade e o conseqüente afastamento de Deus.
O homem sem Deus é um ser errante. Ele não tem objetivos definidos e satisfatórios, ficando sem direção e motivação. Não sabendo o que o aguarda no final da linha, entrega-se aos prazeres mais imediatos que não lhes preenchem o vazio interior. Uma nação sem Deus é uma nação inconstante e cíclica, periodicamente submetida ao julgamento e ira divinos para que a depravação não chegue a níveis tão horrendos e insuportáveis à santidade do Senhor.
Analisando ainda a história do homem na Bíblia e no Cristianismo, percebe-se o povo de Deus cedendo a estes apelos mundanos ao desconsiderar que o Senhor tem reservado algo muito mais valoroso do que o presente século. As palavras bíblicas de alerta em relação aos prazeres carnais são totalmente esquecidos.
Mas deve-se lembrar do que é dito em Apocalipse. No final, todos serão julgados pelo Senhor da História: nações, líderes, povos e indivíduos. Todos serão responsabilizados e responderão por seus atos. Não haverá desculpas, pois está escrito: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl. 6.7).
E como a humanidade pode resolver tão terrível e cruel destino? Felizmente, Deus, em sua infinita misericórdia, oferece a todos a solução para tal sentença: a reconciliação através de Jesus Cristo. Ele é o único remédio, o único caminho, o único mediador. Quando Ele veio à terra teve dificuldades de encontrar lugar. Que Ele não ache também dificuldades em encontrar lugar em cada coração. Não repita a história de seus antepassados. Um dia, Ele voltará e iniciará um novo momento na História da humanidade.

Rosane Itaborai Moreira

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

PERDÃO


Hoje em dia, muito se fala a respeito do perdão tanto no meio religioso como na classe médica. Isto porque a prática do perdão é necessidade para a saúde física, emocional e espiritual do ser humano.
O maior exemplo do perdão está na Bíblia, que mostra que Deus perdoa os nossos pecados e deles não se lembra mais. Perdoar significa que devemos simplesmente não ter aquela ofensa como algo que nos incomoda, nos traz tristeza e dor ao coração, ainda que na nossa memória nos lembremos do episódio. A nossa alma e o nosso espírito devem estar livres da mágoa, sendo ela definitivamente lançada fora de nossa vida.
A Bíblia ensina que devemos perdoar assim como Deus nos perdoou através de Seu filho Jesus. O perdão é uma condição para que Deus nos perdoe. Está escrito em Mt.6;14-15:“Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoastes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas”.
A falta de perdão nos aprisiona, nos amarra, nos adoece literalmente. O sentimento de rancor e mágoa gerado se instala em nossos corações, impedindo que sejamos livres. Ele nos persegue aonde estivermos, tirando a alegria de nossas vidas e trazendo tormento. A parábola do credor incompassivo mostra claramente isso, pois ao servo que não perdoou “o seu senhor o entregou aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida” (MT. 18.35).
Também na Palavra de Deus podemos aprender que o perdão é ilimitado; não há limites para tal prática. Ao perguntar a Jesus quantas vezes devemos perdoar, Pedro recebeu a seguinte resposta: “Não lhe digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt. 18.22).
O perdão é condição para uma vida saudável, para a continuidade de nossos relacionamentos e para a manutenção da nossa comunhão com Deus. Quem permanece em desobediência a este mandamento de nosso Senhor, com certeza será privado da vida em abundância que Jesus veio nos trazer.

Rosane Itaborai Moreira

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

VERDADE E LIBERTAÇÃO


As revelações bíblicas são, via de regra, revelações específicas a respeito de verdades espirituais, mas também pertinentes a todas as áreas de nossas vidas, permeando e norteando a nossa essência e a nossa caminhada. De todas essas verdades que nos regem, uma das mais contundentes delas talvez seja o versículo que diz: "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará." (Jo. 8.32)
O contexto desse verso está apontando para o conhecimento pertinente à vida espiritual, mas tal afirmação é tão verdadeira, universal e divina que é aplicável a todas as formas de vivência humana e a todos os aspectos do saber. É muito interessante observar que tudo aquilo que Deus planejou para a humanidade, Ele mesmo disponibilizou de forma ampla e acessível.
Um bom exemplo de como encontramos a verdade divina permeando o nosso universo e o pensamento da humanidade é o Mito da Caverna, citado abaixo, uma metáfora contada pelo filósofo grego Platão, que ilustra bem a libertação através do entendimento da verdade.
De fato, é bíblico e também muito sabido que o conhecimento da verdade gera libertação. O conhecimento da ciência liberta o homem do misticismo, o conhecimento de si mesmo liberta de vícios, o conhecimento do outro liberta de ações e reações controladoras, o conhecimento de Deus liberta o homem da religiosidade, enfim, o conhecimento, qualquer que seja ele, nos possibilita soltar as amarras, ter uma visão mais ampla e nítida da situação. E aí, temos a possibilidade de fazer escolhas certeiras, com menos sofrimento e dor.
O conhecimento permite que a humanidade enxergue além das sombras, que amplie as suas possibilidades. Permite também que o homem liberto e cheio do conhecimento da verdade possa ir em busca de outros e apresentar para eles verdade que o libertou.


O MITO DA CAVERNA - Platão

Imaginemos uma caverna separada do mundo externo por um muro alto. Entre o muro e o chão da caverna há uma fresta por onde passa um fino feixe de luz exterior, deixando a caverna na obscuridade quase completa. Desde o nascimento, geração após geração, seres humanos encontram-se ali, de costas para a entrada, acorrentados sem poder mover a cabeça nem se locomover, forçados a olhar apenas a parede do fundo, vivendo sem nunca ter visto o mundo exterior nem a luz do sol, sem jamais ter efetivamente visto uns aos outros nem a si mesmos, mas apenas as sombras dos outros e de si mesmos por que estão no escuro e imobilizados. Abaixo do muro, do lado de dentro da caverna, há um fogo que ilumina vagamente o interior sombrio e faz com que as coisas que se passam do lado de fora sejam projetadas como sombras nas paredes do fundo da caverna. Do lado de fora, pessoas passam conversando e carregando nos ombros figuras ou imagens de homens, mulheres e animais cujas sombras também são projetadas na parede da caverna, como num teatro de fantoches. Os prisioneiros julgam que as sombras de coisas e pessoas, os sons de suas falas e as imagens que transportam nos ombros são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são seres vivos que se movem e falam.
Um dos prisioneiros, inconformado com a condição em que se encontra, decide abandoná-la. Fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões. De inicio, move a cabeça, depois o corpo todo; a seguir, avança na direção do muro e o escala. Enfrentando os obstáculos de um caminho íngreme e difícil, sai da caverna. No primeiro instante, fica totalmente cego pela luminosidade do sol, com a qual seus olhos não estão acostumados. Enche-se de dor por causa dos movimentos que seu corpo realiza pela primeira vez e pelo ofuscamento de seus olhos sob a luz externa, muito mais forte do que o fraco brilho do fogo que havia no interior da caverna. Sente-se dividido entre a incredulidade e o deslumbramento.
Ao permanecer no exterior o prisioneiro, aos poucos se habitua a luz e começa a ver o mundo. Encanta-se, tem a felicidade de ver as próprias coisas, descobrindo que estivera prisioneiro a vida toda e que em sua prisão vira apenas sombras. Doravante, desejará ficar longe da caverna para sempre e lutará com todas as forças para jamais regressar a ela. No entanto não pode deixar de lastimar a sorte dos outros prisioneiros e, por fim, toma a difícil decisão de regressar ao subterrâneo sombrio para contar aos demais o que viu e convencê-los a se libertarem também.
Só que os demais prisioneiros zombam dele, não acreditando em suas palavras e, se não conseguem silenciá-lo com suas caçoadas, tentam fazer isto espancando-o.

Rosane Itaborai Moreira