sábado, 29 de dezembro de 2012

RESTAURA, SENHOR, A NOSSA SORTE

Dia 30 é o último domingo do ano de 2012. É tempo de fazer um balanço. Devemos olhar para trás com gratidão, para o presente com súplicas e para o futuro com esperança. O Salmo 126 ajuda-nos nesse exercício. Em primeiro lugar, devemos olhar para o passado com gratidão (Salmo 126.1-3). Depois de setenta anos de escravidão na Babilônia, Israel voltou à sua terra. Deus tirou o povo do cativeiro com mão forte e poderosa. Essa libertação produziu ditosa exultação entre o povo e impacto entre as nações. Quando olhamos, também, para o passado, notamos que Deus nos tirou da escravidão para a liberdade, das trevas para a luz e da morte para a vida. Deus quebrou o nosso jugo e despedaçou nossas algemas. Jesus Cristo redimiu-nos de um terrível cativeiro. Éramos escravos do diabo, do mundo e da carne. Vivíamos debaixo de cruel opressão. Porém, Cristo nos libertou e hoje somos livres. Pertencemos à família de Deus. Somos herdeiros de Deus e estamos assentados com Cristo nas regiões celestes, acima de todo principado e potestade. Há um cântico em nossos lábios e uma festa em nossa alma.
Em segundo lugar, devemos olhar para o presente com súplicas (Salmo 126.4). O salmista voltou os olhos do passado para o presente e percebeu que as vitórias do ontem não servem para nos manter de pé hoje. O mesmo salmista que estava exultante com a libertação do cativeiro, agora, ao contemplar a realidade presente, clama: “Restaura, Senhor, a nossa sorte com as torrentes do Neguebe”. O passado de glória tinha se transformado num deserto cinzento. As vitórias do passado não eram suficientes para torná-lo vitorioso no presente. Todo o dia é tempo de andar com Deus. Todo dia é tempo de ser cheio do Espírito. Não podemos viver do passado nem morar na saudade. Precisamos depender de Deus a todo tempo, o tempo todo. Mais do que isso, é preciso saber que não temos forças para restaurar nossa própria sorte. Só Deus pode restaurar nossa vida. Só Deus pode aprumar nossos joelhos trôpegos. Só Deus pode nos encher de entusiasmo, quando nossa alma parece um deserto árido.
Aprendemos com isso, porém, que a crise não é o fim da linha. A sequidão de nossa vida não deve nos levar ao desespero, mas à súplica ardente. A consciência da crise espiritual pode nos levar aos pés do Senhor para uma virada bendita em nossa história. Somente o Senhor tem poder para nos restaurar. Só dele vem a nossa cura. Essa restauração é uma obra milagrosa. Assim como os rios invernais rasgam as areias escaldantes do deserto do Neguebe, o maior deserto da Judéia, Deus também, faz nossa alma florescer em tempos de sequidão. Ele mesmo nos concede um novo vigor espiritual e transforma nossos vales em mananciais cheios de vida!
Em terceiro lugar, devemos olhar para o futuro com esperança (Salmo 126.5,6). Depois de olhar para o passado com gratidão e para o presente com súplicas, o salmista, agora, olha para o futuro com esperança. O amanhã será de semeadura e investimento. A semeadura exige desinstalação e ação. É preciso sair para semear. A semeadura exige abnegação e sacrifício, pois além de sair, o semeador anda e chora, regando o solo duro com suas lágrimas. Se a semeadura é regada de lágrimas, a colheita certa é feita com júbilo. A recompensa da colheita é maior do que o sacrifício da semeadura. Fazer a obra de Deus é investir para a eternidade. É realizar um trabalho de consequências eternas. Não devemos afrouxar nossos braços nessa bendita peleja. É hora de arregaçarmos as mangas e trabalharmos com mais fervor. O tempo urge. A noite se aproxima. Então, não haverá mais tempo de semear.
Hoje, Deus nos convoca para sermos seus cooperadores. Concede-nos a graça de investirmos nosso tempo, bens, talentos e dons em seu trabalho. Portanto, levantemo-nos, irmãos, e coloquemo-nos a seu dispor. O Deus da nossa salvação e da nossa restauração, agora, nos alista em seu trabalho. Mãos à obra, sem esmorecer. Lança a semente, com a certeza de que o crescimento, Deus mesmo nos dará.

Reverendo Hernandes Dias Lopes
www.lpc.org

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

SATANIZARAM O NATAL

Satanizaram o Natal. Me parece até surreal quando vou a igrejas, e a sites evangélicos, e não se faz nem uma referência ao Natal sequer, nem se tem um culto de celebração dia 24 ou 25 parte da tradição cristã há tantos séculos. Às vezes não acredito, me belisco, penso, não, esta doença vai passar, mas que nada, se alastra mais e mais. Mesmo os cristãos que contra a corrente mandam seus cartõezinhos, se sentem no dever de nos exortar contra o comercialismo, contra os presentes, no meio de votos tímidos de felicidade e feliz ano novo. Quando encontro um irmão na rua e desavisadamente cumprimento com um animado: “Feliz Natal!” Eles me olham como se estivesse falando uma heresia, ou num ar condescendente explicam que já não estão mais neste mundo e que Cristo nasce todo dia….
Tradições religiosas como o Natal tem o papel de reforçar valores sociais comuns. Enquanto no carnaval e no reveillon, a tradição é subverter valores, se esbaldar, praticar o impraticável durante o resto do ano, por isto são chamados por Roberto Damatta, antropólogo brasileiro de “ritos de inversão”, na festa do Natal principalmente os trabalha para reforçar os valores positivos. 
Natal é a festa da família, de comer juntos um peru, de decorar a árvore ou o presépio, de cantar hinos, de se presentear os amigos, os familiares, de dar gorjetas maiores, de pensar nos que estão distantes. Nesta época Holywood lança inúmeros filmes sobre pais e filhos, pais desnaturados com valores errados, que de alguma forma perderam a noção do que é importante, e nesta época se encontram com algo que “os converte” novamente à família. Nesta época até os sem religião ficam com os olhos marejados diante de um presépio bem feito, ou dos garotos cantando canções natalinas nas janelas do HSBC em Curitiba.
Boicotar as festas cristãs mais importantes como o Natal e a Páscoa é boicotar-se a si mesmo, perder uma boa oportunidade para falar de Cristo, abraçar pessoas, espalhar fraternidade e carinho numa época em que as pessoas se voltam automaticamente umas para as outras. Nossa vida em sociedade é feita de ritos, tradições e heranças simbólicas. Estes crentes anti-natal, dominados por um zelo místico e sem respaldo bíblico querem renegar todas suas tradições culturais, até as mais inofensivas.
Ritos de reforço são tão necessários quanto ritos de inversão. Não é porque nos convertemos que deixamos de ter cultura. Continuamos a ter necessidade de reforçar socialmente o que acreditamos. Ironicamente a falta do Natal, junto com a demonização de certos símbolos cristãos como a cruz, continuou tendo este mesmo fim social. Se tornaram os “desritos” que reforçam a separação evangélica do mundo. Mas porquê se tornaram necessários artifícios sociais como estes, se a nossa cultura cristã quando puramente bíblica já nos “marca” automaticamente com uma diferença moral, já nos banha como o hissopo da conversão do caráter que tem não tem paralelo a nenhuma outra experiência humana? A mudança de caráter, a conversão de valores é segundo Jesus (Jo17) e deveria continuar sendo a maior marca que torna os cristãos conhecidos não importa a cultura, os ritos que praticam ou deixam de praticar, a freqüência ou não na igreja.
Infelizmente o sincretismo moral tomou conta da igreja. Pregamos nos nossos púlpitos do mesmo jeito que se prega nas palestras de auto-ajuda nos auditórios de hotéis. Você pode, você merece, você tem direito. Estamos debaixo da soberania do eu, da tirania da felicidade egoísta. Se distribuem riquezas, beleza, orgasmos múltiplos, alegrias festivas nos púlpitos, numa supercialidade que nos faz duvidar que Jesus morreu na cruz, mas deve ter acendido aos céus numa almofada cor de rosa.
O Natal vai sim se tornar uma festa cada vez mais pagã. Vai se falar mais em trenós, duendes e renas, neve (mais uma estupidez nossa, europeus dos trópicos) e cada vez menos no nascimento de Jesus, porquê nós não vamos estar presentes no cenário cultural geral para salgar nada. Vamos ignorar a importância da história mais recente, super-valorizando uma origem pagã datada de milhares de anos atrás.
Nosso cristianismo vai se tornar apenas uma experiência mística vazia, ao invés de uma realização do fato mais importante da história da humanidade, o nascimento do criador em forma de homem. Fato constado historicamente, documentado, materialmente fisicamente e culturalmente real num dia específico da história humana. Um dia ele nasceu, não sei se em setembro, novembro ou dezembro, a acuracidade do mês e do dia não importa tanto quanto o evento. Um bebê humano em toda sua fragilidade, chorou ao ser parido por uma mãe humana. Mas nele havia o DNA divino. Nele estava contida toda a plenitude da divindade, numa maneira que nossa mente limitada não alcança entender. Ele era Deus mas não teve por usurpação o ser igual a Deus, mas antes tomou a forma de servo e seguiu até a morte na cruz.
Nascer, viver, morrer e ressuscitar de uma maneira divina, no entanto humana foi sua mensagem principal. Eu os amo, amo a ponto de me encarnar, de me limitar à sua humanidade, de me tornar criatura, eu o Criador, e assim ensinar-lhes como viver. E assim marcar a história humana com um AC DC. E assim me tornar o autor da maior transformação que a humanidade já sofreu. Esta história que se repete hoje nas nossas vidas, é verdade que ele “nasce” dentro de nós quando nos convertemos, teve um início.
Só me resta agora lamentar nossa ignorância. Ignorância religiosa, sociológica, cultural. Desprezamos símbolos importantes numa fase em que deveríamos reforçar-lhes o valor. Iludidos por ensinos enganadores, superficiais, que desconsideram tanto a história deixamos de relembrar a humanidade do que ela já sabia, mas está esquecendo.
Só me resta lamentar este evangelicalismo armadilha no qual fomos presos. Não sabemos ser cristãos mais. Tornamos-nos semi-bruxos esotéricos, neo-cristãos-medievais próximos das experiências místicas, mas distantes das verdades históricas profundas. Somos capazes de pregar uma felicidade terrena sem limites, mas incapazes dos sacrifícios morais, incapazes da verdadeira santidade, somos capazes de discriminarmo-nos uns aos outros com base em sutis discrepâncias doutrinárias, no entanto incapazes de amar.

Bráulia Ribeiro        
www.genizahvirtual.com

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

UZÁ, UMA MULHER E A ARCA!


Um dos textos mais chocantes do Velho Testamento é aquele no qual Uzá é fulminado por Deus por ter tocado na Arca da Aliança quando os bois que a levavam tropeçaram (II Sm 6: 1-11). Assusta não apenas ao leitor de hoje, mas também apavorou a Davi na hora em que aconteceu. A Arca simbolizava a Presença de Deus no meio de Seu povo! Um toque “diferente”, e o coração veio para fora! Uzá, aparentemente, apenas socorria a Deus. Os bois haviam tropeçado. A Arca poderia ter caído. Todos estavam alegres. Uzá não desejava que nada desse errado. Por isso, ao ver que a carroça pendia pelo tropeção dos bois, estendeu a mão, tocou e morreu por essa “irreverência” diante da Arca do Senhor! A Arca era a simbolização da Presença de Deus! A Presença de Deus revela aquilo que está no coração! Mil anos depois... Uma mulher estava enferma. Havia doze anos que sofria de uma hemorragia que não se deixava estancar. Sangue escorria por entre as suas pernas. A vida se esvaía e ela não se sentia com forças para viver, sem falar no constrangimento de sofrer de uma menstruação crônica—especialmente num contexto onde o fluxo da mulher era algo a ser cerimonialmente tratado como “impureza”. A mulher veio por trás e tocou em Jesus. Imediatamente viu estar livre de seu mal! —Quem me tocou?—indagou o Senhor. —Mestre, a multidão te oprime e te aperta e dizes “Quem me tocou?”—questionava Pedro. —Alguém me tocou, pois, senti que de mim saiu poder!—garantiu o Senhor. Milhares de mãos, nenhum toque! Uma única mão, um toque que fez vazar virtude! A Arca era a simbolização da Presença de Deus. Jesus era a Presença de Deus não simbolizada, mas Realizada: Emanuel, Deus Conosco! Então, por que a Arca carregava o poder de matar como símbolo e Jesus não, mesmo que Ele fosse a realidade do simbolizado?—afinal, uma mão o tocou com fé e milhares o tocavam por razões diversas, talvez bem menos nobres que a de Uzá!—mas ninguém saiu ferido! “O Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salva-las!” O fato é que eu poderia me estender para sempre aqui e nas diferenciações entre a frieza do poder que procedia da Arca como símbolo em contra-partida à seletividade, em Graça, que emanava de Jesus. O que desejo, apenas, é estabelecer o seguinte: Morre-se ou vive-se diante de Deus com o coração! O gesto de Uzá, exteriormente, era uma “irreverência” para Deus. Mas para Davi—que via apenas externamente—tratava-se de algo cruel, que o entristeceu. Ele não entendia aquela severidade de Deus. Ninguém poderia dizer que Uzá morrera de nada que não fosse categorizado apenas como “uma irreverência”; afinal, quem poderia saber o que ele levava no coração, como motivação, quando estendeu a mão para tocar a Arca do Senhor? A mulher tocou Jesus com fé. E só ficamos sabendo isto porque Jesus era maior que a Arca! Jesus contou o que estava no coração da mulher! A Arca simbolizava, mas sua virtude não dava explicações! Desse modo, depreende-se o mesmo princípio: A presença de Deus nos torna nus e expõe o coração como único cenário que vale diante de Deus. O homem vê a aparência. O Senhor, porém, vê o coração. Por isto, mais do que olhar para as aparências exteriores—se meu assunto é Deus—tenho que olhar para mim mesmo! “Examine-se, pois, o homem a si mesmo e, assim, como do pão e beba do vinho, pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si”. O sagrado está no coração!

Caio Fábio

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

DAR DINHEIRO NA IGREJA



Dar dinheiro na igreja tem sido uma prática cada vez mais questionada. Certamente em virtude dos abusos de lideranças religiosas de caráter duvidoso, e a suspeita de que os recursos destinados à causa acabam no bolso dos apóstolos, bispos e pastores, não são poucas as pessoas que se sentem desestimuladas à contribuição financeira. Outras tantas se sentem enganadas, e algumas o foram de fato. Há ainda os que preferem fazer o bem sem a intermediação institucional. Mas o fato é que as igrejas e suas respectivas ações de solidariedade vivem das ofertas financeiras de seus frequentadores e fiéis. Entre as instituições que mais recebem doações, as igrejas ocupam de longe o primeiro lugar na lista de valores arrecadados. Por que, então, as pessoas contribuem financeiramente nas igrejas?
Não são poucas as pessoas que tratam suas contribuições financeiras como investimento. Contribuem na perspectiva da negociação: dou 10% da minha renda e sou abençoado com 100% de retorno.  Tentar fazer negócios com Deus é um contra-senso, pois quem negocia sua doação está preocupado com o benefício próprio, doa por motivação egoísta, imaginando levar vantagem na transação. É fato que quem muito semeia, muito colhe. Mas essa não é a melhor motivação para a contribuição financeira na igreja.
Há quem contribua por obrigação. É verdade que a Bíblia ensina que a contribuição financeira é um dever de todo cristão.  A prática do dízimo, instituída no Antigo Testamento na relação de Deus com seu povo Israel foi referida por Jesus aos seus discípulos, que deveriam não apenas dar o dízimo, mas ir além, doando medida maior, excedendo em justiça. A medida maior era na verdade muito maior. Os religiosos doam 10%, os cristãos abrem mão de tudo, pois crêem que não apenas o dízimo pertence a Deus, mas todos os recursos e riquezas que têm em mãos pertencem a deus e estão apenas sob seus cuidados.
Alguns mais nobres doam por gratidão. Pensam, “estou recebendo tanto de Deus, que devo retribuir contribuindo de alguma maneira”. Nesse caso, correm o risco de doar apenas enquanto têm, ou apenas enquanto estão sendo abençoados. A gratidão é uma motivação legítima, mas ainda não é a melhor motivação para a contribuição financeira.
Existem também os que contribuem em razão de seu compromisso com a causa, com a visão, acreditam em uma instituição e querem por seu dinheiro em algo significativo. Muito bom. Devem continuar fazendo isso. Quem diz que acredita em alguma coisa, mas não mete a mão no bolso, no fundo, não acredita. Mas essa motivação está ainda aquém do espírito cristão. Aliás, não são apenas os cristãos que patrocinam o que acreditam.
Muitos são os que doam por compaixão. Não conseguem não se identificar com o sofrimento alheio, não conseguem viver de modo indiferente ao sofrimento alheio, sentem as dores do próximo como se fossem dores próprias. Seu coração se comove e suas mãos se apressam em serviço. A compaixão mobiliza, exige ação prática. Isso é cristão. Mas ainda não é suficiente.
Poucos contribuem por generosidade. Fazem o bem sem ver a quem. Doam porque não vivem para acumular ou entesourar para si mesmos. Não precisam ter muito. Não precisam ver alguém sofrendo, não perguntam se a causa é digna, não querem saber se o destinatário da doação é merecedor de ajuda. Eles doam porque doar faz parte do seu caráter. Simplesmente são generosos. Gente rara, mas existe. O relacionamento com Jesus gera esse tipo de gente.
Finalmente, há os que contribuem por piedade. Piedade, não no sentido de pena ou dó. Piedade como devoção, gesto de adoração, ato que visa apenas e tão somente manifestar a graça de Deus no mundo. Financiam causas, mantém instituições, ajudam pessoas, tratam suas posses como dádivas de Deus, e por isso  são gratos, e são generosos. Mas o dinheiro que doam aos outros, na verdade entregam nas mãos de Deus. Para essas pessoas,contribuir é adorar.

Ed Rene Kivitz


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ESCRAVOS MODERNOS


O historiador Theodore Zeldin, em seu livro “Uma História Íntima da Humanidade”, vê a história como meio para interpretar as experiências pessoais e emocionais. Um de seus personagens é uma mulher frustrada com a vida e com sua incapacidade de mudar sua realidade. Ela se vê presa num sistema. Zeldin mostra que a escravidão, no passado, foi sustentada por três razões principais. A primeira foi o medo. As pessoas aceitavam os sofrimentos e humilhações impostos por reis e senhores porque tinham medo da morte e das consequências de uma liberdade sem segurança. Para ele “o medo sempre foi mais poderoso que o desejo de liberdade”.
A segunda razão é que os seres humanos tornaram-se escravos voluntariamente. A forma de se escapar da responsabilidade que a realidade impõe é sujeitar-se a algum tipo de dominação. A terceira é que o escravo do passado é, surpreendentemente, o ancestral do executivo e burocrata de hoje. No passado, os homens livres, que eram parte de uma pequena elite, não trabalhavam, consideravam indigno trabalhar para os outros. Somente os escravos trabalhavam.
De certa forma, a escravidão continua. No passado, famintos vendiam seus corpos como escravos; hoje o corpo continua sendo oferecido como mercadoria para pagar aluguel e colocar comida na mesa. No passado, os escravos trabalhavam em troca de comida, roupa e moradia; hoje uma grande massa de operários trabalha e mal consegue pagar pela comida, roupa e moradia. Executivos trabalham doze horas por dia, às vezes sete dias por semana, para manter algum acionista milionário em seu iate no Mediterrâneo. É claro que recebem um bom salário pelo trabalho, mas no passado os escravos mais sofisticados também eram pagos. Segundo Zeldin, no passado muitos escravos se faziam eunucos e abriam mão de ter uma família para se dedicarem aos seus senhores. Hoje muitos profissionais não querem ter filhos e sacrificam suas famílias em nome da carreira.
A liberdade não consiste num conjunto de leis que garantem algum direito, nem na ilusão de que ser livre é fazer o que deseja. Mesmo sabendo que tenho o direito de ir e vir, pesa sobre mim a escolha do lugar para onde quero ir e quando devo voltar. Mesmo sendo livre para fazer o que desejar, pesarão sobre mim as consequências do meu desejo.
Não somos livres, pelo menos não no sentido que muitos apregoam. Os adultos trabalham -- e trabalham para alguém, mesmo quando são donos do seu negócio. Qualquer escolha livre implica a renúncia de outras possibilidades. E isso limita a liberdade. Talvez a nossa única liberdade seja a de escolher a quem servir. 
A condição de escravos traz sempre algum tipo de frustração. Numa cultura narcisista, o fracasso é inaceitável e a realidade, insuportável. No entanto, todos nós fracassamos, e a realidade, quase sempre, é dolorosa. As frustrações são fruto de nossas limitações -- limitações que insistimos em não aceitar.
“Negar a morte, não visitar os cemitérios, não vestir luto, tudo isto parecia uma afirmação da vida, e de fato o foi em certa medida. Mas, paradoxalmente, acabou se transformando numa armadilha, mais uma das muitas que a sociedade moderna fabricou para que o homem não sinta as situações limite, aquelas em que nosso mundo desaba, as únicas capazes de nos despertar desta inércia que nos move” -- observou o escritor argentino Ernesto Sábato (1911-2011).
A consciência de quem somos e quem Deus é nos ajuda a lidar com o dilema da escravidão e das frustrações. Reconhecer que somos pecadores e que vivemos num mundo marcado pela queda nos ajuda a aceitar os espinhos da vida e o lugar do suor para ter o pão de cada dia. Reconhecer Deus, em seu Filho Jesus Cristo, nos ajuda a perceber que somente um ser totalmente livre pode oferecer liberdade. Seguir a Cristo é colocar-se sob a autoridade do único que pode nos conduzir no caminho da liberdade. É por isso que Jesus afirma: “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”.  
A escravidão moderna não pode ser simplesmente abolida. A solução estaria em se ter a coragem de escolher a quem servir. Jesus disse: “Não podeis servir a Deus e às riquezas”. É impossível agradar a ambos. Somente as escolhas feitas por amor refletem a liberdade humana.


Pr.Ricardo Barbosa de Sousa 
www.ultimato.com.br

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O LONGO CAMINHO DA MATURIDADE


A nobreza humana é fruto do longo caminho percorrido por aqueles que, com perseverança, amor, bondade e fidelidade, vão escrevendo sua história.
Tenho me perguntado com relativa frequência: por que as pessoas são tão resistentes ao amadurecimento? Por que tem se tornado tão raro ver homens e mulheres crescendo emocionalmente e espiritualmente? Convivo com pessoas que, apesar de todas as experiências já vividas, depois de terem lido bons livros, conversado com pessoas maduras e inteligentes, de terem passado por escolas e universidades, ouvirem boas palestras e saberem quase tudo o que a Bíblia ensina, permanecem imaturas. Pessoas assim resistem com todas as forças a qualquer mudança; repetem os mesmos erros, as mesmas dúvidas, os mesmos sentimentos de rejeição; implicam com as mesmas coisas, oram pelos mesmos assuntos, brigam as velhas brigas. Dão a impressão de que não avançaram um milímetro no caminho do amadurecimento, não subiram nenhum degrau na escada do crescimento, não deram nenhum passo em direção a uma vida mais verdadeira. Alguns dão a impressão de que, na verdade, andaram para trás, retrocederam, tornaram-se piores do que já foram.
Basta olhar à volta e ver como as pessoas estão envelhecendo. É raro encontrar hoje um idoso maduro, sábio, bem humorado, destes que já viveram o bastante e souberam aproveitar cada experiência, que não vivem por aí resmungando e reclamando da vida, lamentando a idade e as oportunidades perdidas. Têm sempre uma boa palavra, um bom conselho; sabem envelhecer e não ficam procurando, pateticamente, viver como um adolescente, achando que o bonito está em retroceder e que a velhice é um estágio da vida que precisa ser deletado.
Penso que a resistência ao amadurecimento tem alguma relação com a resistência ao envelhecimento. Certamente, há muitas razões para a letargia emocional e espiritual em que nos encontramos hoje. Na verdade, ao olharmos para as virtudes cristãs, vamos perceber que, uma a uma, vêm sendo desprezadas e desconsideradas em nossa gloriosa civilização moderna e tecnológica. Humildade, simplicidade, castidade, generosidade, amor, bondade, paciência, coragem, lealdade, fidelidade, perseverança e gratidão vêm sendo substituídos por orgulho, vaidade, ambição, egoísmo, pressa, luxúria, inveja, traição, inconstância e ciúme. Somos, hoje, uma geração que não sabe mais amar, mas fazer sexo; que transformou o velho pecado da ambição na virtude da competência e da competitividade; que fez da vaidade a porta de acesso às banalidades sociais e do egoísmo uma arma de sobrevivência.
A paciência há muito deixou de ser uma virtude e, em seu lugar, cresceu o espírito da urgência e da pressa que, com seu pragmatismo funcional, atropelou o longo caminho da construção da dignidade e da honra. O sentimento de gratidão vem sendo substituído pela luta pelo direito e não há mais em nós aquele sentimento de dívida, que, no passado, moldou o caráter das pessoas que contribuíram com seu sacrifício para com a humanidade, porque reconheciam, com profunda gratidão, que tudo o que tinham lhes havia sido doado. O amor e a castidade perderam sua nobreza, transformando o corpo num artigo barato, usando a sensualidade como moeda para adquirir alguns momentos de euforia sexual.
Há um tempo atrás escrevi um artigo alertando contra o perigo dos atalhos. Minha preocupação era a mesma de hoje. A nobreza humana é fruto do longo caminho percorrido por aqueles que, com paciência e perseverança, gratidão e respeito, amor e bondade, fidelidade e lealdade, vão escrevendo sua história rumo à maturidade. São pessoas que sabem aproveitar cada experiência vivida, que não fogem do sofrimento e da dor, que reconhecem que tudo o que tem valor encontra-se nas profundezas da alma e precisam ser garimpados com paciência e perseverança.
Há uma metáfora do apóstolo Paulo que nos ajuda a entender isso. Ele compara a vida a uma corrida, na qual, para ganhar o prêmio, o corredor precisa de duas coisas: manter diante de si o alvo e ter disciplina. Para ele, a vida deveria ser olhada assim.
Ele afirma que corria como quem sabe aonde quer chegar e, como todo atleta, impunha sobre si a disciplina necessária para ter a certeza de que não correu em vão. A imaturidade é o resultado de uma história vivida sem consciência de destino e sem disciplina.
A sensação de vazio, o tédio e falta de significado é o que move as novas gerações. Não se vê mais um sentido de missão ou consciência vocacional; não se sabe para onde caminham e nem os valores que abraçam. Os apelos da propaganda, as inúmeras ofertas e possibilidades, a agitação das festas e bares, os convites para as mais variadas atividades, levam a uma falsa sensação de preenchimento e significado. Contudo, quando as luzes se apagam, o barulho cessa, a multidão desaparece e a ressaca acaba, não sobra nada a não ser um vazio que insiste em dizer, silenciosamente, que o caminho não é este, que o alvo se perdeu, que as forças estão se esvaindo – e o tédio começa a bater mais fortemente na porta.
A maturidade tornou-se um artigo raro na sociedade pós-moderna. Alguns dias atrás, uma senhora me procurou para falar dos planos de casamento de sua filha. No meio da conversa, sua preocupação com a maturidade do casal, particularmente de sua filha, ficou evidente. Ela tinha certeza de que não estavam preparados para celebrar uma aliança tão importante e vital para suas vidas. No fim da conversa, ela disse num tom irônico: “Mulheres como eu, capazes de enfrentar as lutas que enfrentei, trabalhar, criar os filhos, amar o marido mesmo nos momentos mais difíceis, honrar a aliança que fizemos, superar as diferenças e chegar a esta altura da vida mais plena e mais verdadeira, apesar de todas as cicatrizes que ficaram, é coisa rara, pastor, muito rara”. Ela estava certa.

Pr. Ricardo Barbosa de Souza 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

PODANDO GALHOS, GERANDO FRUTOS

A linguagem de Jesus nos evangelhos é cheia de metáforas e imagens. Suas parábolas são um convite a imaginação. Não são apenas, como muitos pensam, ilustrações de grandes verdades e doutrinas: são histórias que nos convidam a entrar num mundo rico de símbolos, imagens, possibilidades e verdades.
Jesus nem sempre conclui suas histórias. Ele deixa que o final delas seja escrito por mim e por você, e, todas as vezes que as lemos, encontramos um final diferente. O bom das histórias é que elas não são como a aritmética, exatas, imutáveis. Desde que aprendi que dois mais dois somam quatro, isto nunca mais mudou. Mas as histórias não são assim. Elas crescem com a gente, amadurecem à medida que amadurecemos, não perdem nunca sua beleza e seu encanto, estão sempre a desafiar nossa imaginação.
Uma das metáforas que Jesus usa nas conversas com seus discípulos, rica em imagens, é a da videira. Ali ele apresenta a nossa vida espiritual como sendo os galhos ligados à videira. Ele mesmo é a videira, e nós, os galhos. Mas, para que os galhos da videira cresçam e dêem os seus cachos, eles precisam do trabalho de um agricultor, que, com precisão e experiência, realiza a poda.
Jesus diz que Deus, o Pai, no início de cada primavera, toma os ramos em suas mãos e começa esta delicada tarefa de jardineiro. Ele limpa, corta e tira o excedente para que as flores e os frutos apareçam e cresçam saudáveis. Esta é uma bela metáfora sobre a necessidade de manutenção da vida espiritual.
O crescimento espiritual não é o resultado da somatória de eventos, experiências, informações e realizações que acumulamos. É, sim, o resultado de um longo processo de jardinagem, no qual o experiente jardineiro corta, apara e limpa para depois ver a flor e o fruto brotando com beleza e saúde. Muitas vezes, pensamos que a vida espiritual é determinada por aquilo que fazemos para Deus. No entanto, esta metáfora nos mostra que, antes de fazermos alguma coisa, darmos algum fruto, nos submetemos ao trabalho da poda. O que Deus faz em nós precede o que fazemos para ele.
Para quem não conhece o trabalho de jardinagem, a poda pode parecer, numa primeira vista, um processo de mutilação, de agressão. A planta podada fica feia, algumas chegam a sangrar, mas este é o único caminho para depois crescer com saúde e produzir as flores e os frutos que irão embelezar e alimentar o mundo.
Temos algumas coisas que precisam ser podadas. Uma delas é a ambição. Nossa busca por sucesso, por garantias profissionais e financeiras, por segurança e estabilidade tornou-nos prisioneiros de um velho pecado que surge hoje com cara nova: a ambição. Noutros tempos, era considerada um grande mal; hoje é aclamada, valorizada, buscada e desejada. Transformou-se numa virtude. O problema é que ela sutilmente inverte os pólos, levando-nos a deixar de ser criaturas para ser criadores.
Nossas vidas só podem ser vividas plenamente quando vivemos nos termos da criação. Isto implica viver debaixo de uma ordem definida na criação, ou seja, Deus ama e nós somos amados; Deus cria e nós somos criados; Deus revela-se e nós recebemos a revelação; Deus ordena e nós obedecemos. Isso nos leva a crescer como criaturas, a aceitar o Criador, a entender que não sou eu que dou sentido ao mundo, é Deus; que não preciso lutar pelo meu espaço, pelo reconhecimento, mas descobrir quem sou e o propósito de minha vida diante de Deus. Ser cristão é aceitar os termos da criação.
Isto não nos impede de crescer profissionalmente, de oferecer alguma estabilidade financeira para a família; mas liberta-nos da tentação de viver num mundo sem Criador, de carregar um peso que não nos pertence, de inverter os pólos e assumir aquilo que é próprio de Deus. Se deixamos o jardineiro podar nossas ambições, teremos maior disposição para aprender, para amar, para ser conduzidos e abençoados.
Outra poda de que necessitamos é a da ingratidão. Ela nos torna pessoas insatisfeitas. Nunca temos o suficiente, há sempre algo faltando. Perdemos a capacidade de ver Deus agindo nas pequenas coisas, a alegria de perceber sua graça nos detalhes. Com isso, perdemos também a capacidade de confiar. Dependemos apenas de nós. E, na busca por autoconfiança, encontramos a ansiedade e o desespero. Fechamos as portas da alma para a presença alegre e libertadora do Espírito Santo. Seguimos reclamando, sem perceber o cheiro das flores e o sabor dos frutos. Somos galhos infrutíferos.
Podar a ingratidão é abrir a alma para a generosidade de Deus; é dar, ao invés de somente receber; é ir ao encontro do outro, ao invés de esperar que nos encontre; é oferecer a mão, o ombro, o carinho, a compaixão, ao invés de lamentar a solidão e o abandono. É aqui que experimentamos a alegria do Senhor, que nos tornamos pessoas extravagantes, generosas, gratas. Ao invés de buscar bênçãos, tornamo-nos benção para os outros. É neste movimento que crescemos, que exalamos o perfume, que trazemos os frutos da poda divina.
Precisamos também deixar podar nossa apatia ou acomodação. A apatia é fonte da anemia espiritual. Ela nos torna descuidados, displicentes, acomodados. Não há nada mais feio do que um jardim abandonado. As roseiras que não foram podadas no tempo certo, que cresceram desordenadas, não têm mais forças para fazer as rosas brotarem, misturam-se com o mato, tornam-se semelhantes a eles. Precisamos mais uma vez da experiência do jardineiro. Limpar o mato, tirar o excesso, podar é possibilitar novamente o fluxo da vida, o viço da beleza, o crescimento saudável.
O descuido da vida devocional, o desinteresse pela oração, o descaso para com a igreja, o abandono da comunhão vão permitindo que o mato cresça. Outros hábitos vão sendo formados, passamos a gostar de outros lugares, a ter prazer noutras coisas. O mato começa a fazer parte da paisagem, toma conta do jardim. O problema é que só daremos conta do mal quando o fruto vier apodrecido, isto se vier algum fruto.
Podar a apatia e a acomodação é renovar alianças e votos . É permitir que a seiva da graça de Deus volte a correr por todos os canais, trazendo de volta a vida e a paixão por Deus, pela família, por irmãos e irmãs. É voltar os olhos para o futuro e, como o jardineiro - que, logo após a poda, deixa a roseira mutilada e feia -, saber que, após alguns dias de chuva e sol, surge ela cheia de vida, bela, radiante e admirada pelas cores e pelo perfume.
Precisamos da poda. É doloroso, mas necessário. Há muito mato, muito ramo que não cresce mais, não dá mais fruto. Jesus advertiu-nos dizendo que o destino do mato e dos ramos infrutíferos é o fogo, não prestam para mais nada. Precisamos mais uma vez da mão de um jardineiro, de alguém que, com experiência e amor, tire fora tudo aquilo que impede nosso crescimento, que sufoca a alegria, que rouba a paz, que enfraquece a confiança e que tira a segurança.

Pr. Ricardo Barbosa de Souza

terça-feira, 10 de julho de 2012

QUANDO A BÍBLIA FAZ MAL!


Sempre que se obedece à Escritura por causa dela mesma, se está cedendo à tentação do Diabo!
Não é de estranhar, portanto, que o pai da fé, Abraão, tenha vivido pela fé na Palavra antes de haver Escritura, mostrando-nos assim, que a Palavra precede a Escritura.
A fé vem pelo ouvir-escutar-crer-render-se à Palavra.
E a pregação só é Palavra se o Espírito estiver soprando. Do contrário, é só prega-ação!
E a pregação que não é Palavra é apenas estudo bíblico, podendo gerar mais doença do que libertação.
A grande tentação é fazer a Escritura se passar por Palavra. As Escrituras se iluminam como a Palavra somente quando aquele que a busca tem como motivação o encontro com a Palavra de Deus. Ou quando o Deus da Palavra fala antes ao coração!
A Bíblia é o Livro.
A Escritura é o Texto.
A Palavra É!
“Escritura” sem Deus é apenas um texto religioso aberto à toda sorte de manipulações!
No genuíno encontro com Deus e com a Palavra, a Escritura vem depois.
Sim! A Escritura vem bem depois!
O processo começa com a testificação do Espírito — pelo testemunho da Palavra de que somos filhos de Deus (Atos 16:14; Romanos 8:14-17; 10:17).
Depois, nos aproximamos da Escritura, pela Palavra. Então, salvos da “Escritura” pela Palavra, estudamo-la buscando não o seu poder ou o seu saber, mas a “revelação” imponderável acerca da natureza e da vontade de Deus, que daquele “encontro”—entre a Escritura, a Palavra e o Espírito — pode proceder.
Para tanto, veja João 5:39-40, onde o exame das Escrituras só se atualiza como vida se acontecer em Cristo.
Um exemplo do que digo é a tentação de pular do Pináculo do Templo. Tinha uma “base bíblica”— se levarmos em conta a Escritura como sendo a Palavra. Mas o que Jesus identificou ali foi a Escritura sem a Palavra.
Um ser pré-disposto ao sucesso teria pulado do Pináculo em “obediência” à Escritura e à sua literalidade, violando, para sua própria morte, a Palavra.
Sim! Estava escrito.
Porém, não estava dito!
Ora, é em cima do que está escrito mas não está dito, que não só cometemos “suicídios”, mas também “matamos” aqueles que se fazem “discípulos” de nossa arrogância, os quais, motivados pelas nossas falsas promessas, atiram-se do Pináculo do Templo abaixo.
E é também por causa desse tipo de obediência à letra da Escritura que nós morremos.
A letra mata!
Olhamos em volta e vemos o Livro de Deus em todas as prate-Lei-ras. Vemos o povo carregando-o sob o braço e percebemos que eles são apenas “consumidores de Bíblias”.
Vemos seus lideres e os percebemos, muitas vezes, apenas como “mercadejadores” de Bíblias e dos “esquemas” e “programas” que se derivam do marketing que oferece e vende sucesso em “pacotes em nome de Jesus”.
Sim! E isso tudo não porque nos faltem Bíblias e muito menos acesso à Palavra.
O que nos falta é buscar a Deus por Deus.
O que nos falta é sermos filhos amados de Deus não porque isto nos dá status Moral sobre uma sociedade que não é mais perdida que a própria “igreja”, coletivamente falando, é claro!
O que nos falta é a alegria da salvação, sendo essa alegria apenas fruto de gratidão.
É somente na Graça que a leitura da Bíblia tem a Palavra para o coração humano. Sem a iluminação do Espírito a Bíblia é apenas o mais fascinantes de todos os best-sellers.
 
Caio
Escrito em 2002
Floresta
Amazonas
www.caiofabio.net

terça-feira, 3 de julho de 2012

LEI E GRAÇA

Toda mensagem de Deus, que chega até nós, chega em forma de Lei. Porque Deus não pede, manda.
Toda a Lei de Deus tem de ser cumprida. Porque Deus fala para ser obedecido.
Ninguém, entretanto, tem condição de cumprir a Lei de Deus. Porque nada podemos fazer por nós mesmos. Não há suficiente força em nós.
Logo, toda Palavra de Deus revela a nossa impotência. Toda a impotência reconhecida revela nossa necessidade. Toda a necessidade assumida revela a nossa dependência. Toda a dependência nos humilha.
Bem aventurados os humildes!
Ter consciência de sua humildade não é necessariamente estar em situação humilhante. A criança recém-nascida se humilha diante do seio da mãe, mas, em hipótese alguma está em situação humilhante. Pelo contrário, o seio da mãe a dignifica.
Assim a Lei de Deus nos humilha para que a Graça de Deus nos exalte.
Deus, através de sua Lei nos coloca de joelhos para que, por meio de sua Graça, nos coloque de pé.
A Lei está para a Graça, assim como a Graça está para a Lei. 


Pr. Ariovaldo Ramos 

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A LEI DA GRAÇA

Vivemos num mundo capitalista e, mais do que isso, degenerado pelo pecado; daí a dificuldade de lidarmos com a graça. Não entendemos que Jesus nos deu a vida eterna e não exige nada de nós por isso, apenas que aceitemos gracioso presente.
Não são mais necessários sacrifícios, obras ou lei, pois o sangue de Cristo foi o sacrifício definitivo, obra perfeita e cumprimento final da lei.
Para entender viver na graça de Cristo é necessário compreender Suas palavras. Na parábola da Videira e os ramos, o Senhor diz: “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo. 15.5)
Ou seja, apenas sendo totalmente dependente de Cristo, estando ligado íntima e definitivamente a Ele é que se produz resultados na vida cristã, pois até quem faz somente o que é correto será por Jesus rejeitado se não for um discípulo seu.
Nosso julgamento primário não será por nossas obras, e sim por quem escolhemos como Senhor: se foi Jesus Ele sempre nos reconhecerá e viveremos eternamente.
A Lei do Antigo Testamento nos serviu como um “aio”, um condutor que mostrou o nosso pecado e a necessidade da misericórdia e perdão de Deus. Cumprida por Cristo, tornou-se desnecessária e, agora, a lei da Graça resume-se no amor.
Quando os religiosos perguntaram a Jesus qual era o maior mandamento, Ele respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mt. 22. 35-37). E ainda os surpreendeu (v. 38): “Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.”.
Sendo a lei do amor muito mais abrangente do que a lei mosaica, pois sonda as intenções do coração, não conseguimos vivê-la por nossas virtudes, mas somente pelo poder de Deus. Ou seja, apenas se estivermos presos como ramos na Videira, que é Jesus.
Aos cristãos cabe “negar a si mesmo”, “tomar a cruz e seguir”, “caminhar a segunda milha”, “oferecer a outra face”, “vencer as tentações”, só que debaixo da lei do amor, através da graça de Cristo, pois o homem natural não é capaz de atos tão nobres e tamanho desprendimento.
Se quisermos viver a vida abundante e a liberdade que Jesus nos oferece, precisamos aceitar que simplesmente a graça nos salva e que a vida em Cristo, apesar de não ser fácil, é suficiente para garantir bons frutos em nossa caminhada cristã. Somente o amor de Deus deve nos constranger. Sem legalismo, medo do inferno ou do diabo. Apenas pela lei da graça: o amor.

Rosane Itaborai Moreira

Postado em 05/06/2010


sexta-feira, 8 de junho de 2012

A SOBERANIA DE DEUS


Todos nós precisamos constantemente afirmar e reconhecer o poder de Deus. É bom saber que o Deus em quem nós cremos é soberano e governa sobre todas as coisas, que nada escapa ao seu controle, que nem mesmo um fio do cabelo de nossa cabeça cai sem o seu consentimento e que ele mesmo conduz todas as coisas para o cumprimento dos seus propósitos eternos. É bom saber que mesmo os que se julgam poderosos e agem com extrema arrogância encontram-se sob o domínio daquele que reina para sempre, e que um dia se curvarão diante dele e o reconhecerão como Senhor. "O Senhor reina" é a confissão de fé de todos os crentes, em todas as épocas da História.
Contudo, se de um lado reconhecemos e afirmamos o poder e a soberania de Deus, e gostamos de saber que ele governa - pois é esta verdade que nos dá segurança e esperança -, nem sempre demonstramos a mesma alegria com a forma como Deus reina e dirige a vida de cada um de nós. Queremos o seu poder para solucionar os conflitos que nos afligem, para nos abençoar com as dádivas que necessitamos, mas quando Deus usa este mesmo poder para nos disciplinar e nos libertar das algemas que nos aprisionam, mas que aprendemos a gostar tanto delas, é comum nos revoltarmos contra ele. Quando Deus usa o seu poder para nos fazer andar por caminhos que não planejamos e experimentar as provações que necessitamos para nossa transformação, mas que nos ferem e trazem grande sofrimento, levantamos suspeitas sobre o seu amor e poder.
É assim que temos vivido. Nossas crenças são experimentadas de acordo com nossas conveniências e não contemplam a totalidade das nossas experiências. Somos gratos quando nos convém ser gratos, quando coisas boas acontecem e podemos dizer "obrigado" com tranqüilidade. Mas quando coisas ruins acontecem, quando passamos por momentos de dor e tristeza, fracasso e rejeição, transformamos a gratidão em murmúrio e desconfiança. Quando nos sentimos "abençoados" e experimentamos o sucesso na vida profissional, a paz na família, a segurança no trabalho, a alegria da comunhão com os irmãos, a estabilidade financeira, o reconhecimento e aceitação daquilo que somos e fazemos, não temos nenhuma dificuldade para reconhecer que é Deus que nos tem guardado e abençoado com seu poder; todavia, quando vivemos o reverso desta moeda, tiramos Deus de cena e colocamos o diabo, as forças ocultas, os inimigos e as incompreensões. Aí, tornamo-nos pessoas amargas, incapazes de reconhecer o poder e soberania de Deus na nossa vida e sobre todas as cosas.
Sei que é difícil mudar isto e não estou propondo que devemos reagir do mesmo jeito em todas as circunstâncias porque cremos na soberania de Deus. A alegria e a tristeza, a dor e o consolo encontrarão sua forma própria de se expressar. No entanto, as nossas convicções precisam se estender a todas as situações vividas e isto requererá um longo e duro trabalho espiritual. Só iremos amadurecer espiritualmente quando formos capazes de dizer em qualquer situação vivida: "o Senhor reina".
Enquanto permanecermos divididos entre os eventos e pessoas que gostamos de lembrar e aqueles que procuramos esquecer, as experiências que nos agradam e aquelas que nos causam pesar e desapontamento, não poderemos afirmar o governo pleno de Deus sobre nossas vidas. Em conseqüência, isto irá nos levar a não reconhecê-lo em todos os nossos caminhos.
Reconhecer que o Senhor reina nos levará a aceitar que tudo o que experimentamos, todas as situações vividas, os encontros e pessoas que passaram e ainda passarão pela nossa vida e todas as circunstâncias cooperam para o nosso bem. Jó, depois de ter passado por uma experiência terrível, após ter perdido todos os seus bens, ver sua família sendo dizimada, sua honra e prestígio virando pó, volta-se para Deus e, numa oração singela, diz: "O Senhor deu, o Senhor tomou. Bendito o nome do Senhor". Jó mantém sua fé e confiança no reinado de Deus e não divide sua alma. Ele não diz: "O Senhor deu e o diabo tomou", o que poderia ser até compreensível. Mas ao dizer que foi o Criador que deu e tomou, ele estabelece um princípio que integra sua crença com sua vida. É esta integridade que possibilita a Jó viver uma das experiências mais transformadoras de toda sua existência.
Precisamos dar um pouco mais de coerência às nossas crenças, reconhecendo a soberania de Deus em tudo, e aprender a ser gratos pela forma como ele nos conduz no mundo. Precisamos romper com o medo e a suspeita e aprender a olhar para tudo que acontece conosco a partir da verdade de que o Senhor reina. E confiar que ainda veremos a sua boa e segura mão nos guiando.
Confiança é a condição básica para vivermos uma vida espiritualmente madura. Os trapezistas nos oferecem uma belíssima imagem disto, pois a condição da sua arte depende da confiança naquele que irá segurá-lo. Eles podem aventurar-se a saltos mortais triplos porque sabem que o outro estará lá, no lugar certo, na hora certa. Enquanto não confiamos que Deus nos sustenta e guarda, que nos segura e protege, viveremos uma vida dividida entre aquilo que gostamos e cremos proceder de Deus e aquilo que não gostamos e desconfiamos da sua procedência. Ao fazer isto, viramos juízes dos atos de Deus. Julgamo-nos melhores do que o próprio Deus.
Na história de Jó, sabemos que foi o diabo que impôs sobre ele aquela enorme tragédia, mas ao dizer que Deus deu e Deus tomou, ele reconhece que sua vida nunca encontrou-se dividida, que o reinado de Deus é pleno e absoluto, e buscou no Senhor que reina a resposta para seus conflitos.
Precisamos unir nossas vozes a de muitos outros irmãos e irmãs, e adorar aquele que reina pelos séculos dos séculos, reconhecendo que seu governo se estende sobre todas as coisas e que conduzirá tudo para o fim que ele mesmo determinou.

Pr. Ricardo Barbosa de Souza
Texto extraído originalmente da coluna Espiritualidade da Revista Eclésia



segunda-feira, 21 de maio de 2012

CRISTO RESSUSCITOU!


“Encontraram removida a pedra do sepulcro, mas, quando entraram, não encontraram o corpo do Senhor Jesus. Ficaram perplexas, sem saber o que fazer. De repente dois homens com roupas que brilhavam como a luz do sol colocaram-se ao lado delas. Amedrontadas, as mulheres baixaram o rosto para o chão, e os homens lhes disseram: "Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui! Ressuscitou! (Lucas 24.2-6)
Esse acontecimento fundamental e essa frase tão gloriosa têm atravessado séculos: Jesus ressuscitou! 
A Ressurreição é o evento mais importante do Cristianismo e de toda a história da humanidade. Nada tão poderoso foi dito desde a criação do mundo.
A ressurreição do Senhor é a demonstração do imenso poder de Deus e de Sua soberania sobre a vida e a morte. Apenas o Deus criador seria capaz de devolver à vida aquele que já morrera.
A ressurreição de Jesus é também a garantia de que nós ressuscitaremos e viveremos eternamente com Cristo. É o fundamento da nossa fé e da nossa esperança. Como Paulo alertou os coríntios a esse respeito: “Se não há ressurreição dos mortos, então nem mesmo Cristo ressuscitou; e, se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm. Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo, dentre todos os homens somos os mais dignos de compaixão.” 
(1 Co. 15.13,14,19)
A Ressurreição é a vitória gloriosa e triunfante da Vida sobre a morte, pois Jesus morreu, ressuscitou e voltará! A morte não pode conter o nosso Salvador. Da mesma forma, nós não morreremos, antes, seremos participantes dessa vitória e viveremos eternamente com Cristo Jesus. “Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: "A morte foi destruída pela vitória".” (1 Co.15.54)
Há um hino que retrata o refrigério e o descanso que a ressurreição de Cristo proporciona às nossas almas: “Porque Ele vive, posso crer no amanhã; porque ele vive, temor não há. Mas eu bem sei, eu sei, que a minha vida está nas mãos do meu Jesus, que vivo está”.
Cristo ressuscitado é a nossa alegria, a nossa vitória, a nossa esperança...

Rosane Itaborai Moreira

segunda-feira, 7 de maio de 2012

SEPARAÇÃO E CONTRASTE



Sou de uma geração que ouviu falar muito sobre santidade. Na minha juventude havia uma preocupação sincera com a necessidade de se viver uma vida santa. Livros como “Em Seus Passos o Que Faria Jesus?” e a constante pergunta se Jesus faria o mesmo no meu lugar funcionavam como uma forma de freio moral. A luta contra os três grandes inimigos da santidade -- o diabo, o mundo e a carne -- era levada a sério. A vontade de resistir-lhes era grande. A luta era incansável.A busca pela santidade trouxe, para muitos, um tipo de paranoia, uma preocupação com a “perfeição” moral que negava o prazer. Isto levou alguns a abandonarem a fé, a fim de preservar a sanidade. Outros, sem abandoná-la, tornaram-se cínicos em relação ao discurso moralista cristão. As mudanças sociais dos anos 60 e 70 questionaram a herança cristã vitoriana, promovendo uma mudança de paradigmas.  
A partir dos anos 80, o tema da santidade perdeu força e interesse. Em seu lugar, entrou a preocupação com a “saúde espiritual”. Cresceu a busca por uma espiritualidade mais humana, centrada no bem-estar pessoal e no reconhecimento do prazer como expressão saudável da fé. Se o velho modelo era fundamentado na renúncia e no sacrifício, o novo foi construído sob o alicerce do prazer e da aceitação. 
Entramos no século 21 e percebemos que “saúde espiritual” tornou-se sinônimo de “saúde emocional” e substituto para a salvação por meio do arrependimento e da fé. Sentir-se bem e ter saúde emocional e espiritual é o que importa. O discurso cristão não é mais contracultural. O mundo e a carne deixam de ser inimigos. Ser cristão significa sentir-se bem e ajustado com a cultura secularizada. 
Contudo, o chamado para sermos santos permanece central para a vida cristã. Mesmo que nossa compreensão seja limitada ou condicionada por modelos culturais, a identidade cristã repousa sobre o fato de que Deus é santo e, porque ele é santo, somos chamados a ser santos como ele. E o que isso quer dizer?
O reverendo J. I. Packer afirma que a santidade envolve separação e contraste. A vida de Jesus ilustra bem isto. Por um lado, ele afirma que seu reino não é deste mundo (separação). Por outro, a forma como vive representa um enorme contraste com a cultura da época. Ser santo é ser separado do mundo. Não uma separação alienada ou esquizofrênica, mas sim uma separação que intensifica o contraste entre o mundo e o reino de Deus. 
Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, Deus chama e separa um povo para ser seu, um povo sobre o qual ele reina e governa. O profeta Jeremias reafirma o significado da aliança, dizendo: “Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Jr 31.33). O apóstolo Pedro faz coro, dizendo: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia” (1Pe 2.9-10).
Conversão significa responder ao chamado de Cristo em obediência e fé, renunciar o mundo e viver como povo santo de Deus. Isto requer separação e contraste. É por esta razão que Jesus disse aos discípulos que, se eles fossem do mundo, o mundo os amaria; porém, como eles foram chamados do mundo para Cristo, o mundo os odeia como também o odiou (Jo 15.18-19). Viver como Cristo viveu implica participar do mesmo sofrimento e das mesmas alegrias. Jesus afirmou: “O servo não é maior que o seu Senhor”.
A esperança para o mundo repousa neste povo separado por Deus. Um povo cuja vida, relacionamentos, conduta, ética, moral, expõem o contraste entre a humanidade pretendida por Deus e revelada em Jesus Cristo e a forma como o mundo e a cultura se estruturam sem Deus. Este contraste traz esperança para alguns, tensões para outros e, inclusive, incompreensão e perseguição. 

Pr. Ricardo Barbosa de Sousa
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